terça-feira, junho 27, 2006

difícil como sempre foi

Ele me perguntou se eu gostava dele. Eu falei que sim. Falei que sim porque eu gostava de verdade. Talvez não gostasse tanto quanto ele achava que eu gostasse ou achasse que eu deveria gostar, mas gostava. Gostava sim. Mas só gostava. Não era mais que isso e não podia ser mais que isso. É porque é sempre difícil pra mim. É sempre difícil começar de novo. Porque o coração ainda dói tentando pegar do chão os pequenos pedacinhos nos quais se transformou depois da última grande queda.

Ele me olhava nos olhos e me esperava. Sim, ele esperava alguma coisa e isso eu lia com clareza nos olhos azuis. Esperava que eu dissesse que não era por isso que eu dizia as coisas que eu dizia. Seu complexo que faz isso. Ele sempre acha que não é pelo que eu falo. Ele acha que é por causa do outro lance. Mas não era. E não é. Só é um pouco complicado. Complexo? Sim. Porque nada é claro e simples quando se trata em gostar de novo.

Ele disse que eu não devia me apressar. Concordo. Acho que não devo mesmo. Às vezes boto os carros na frente dos bois-- quase sempre na verdade. Aí eu respirei fundo e falei olhando naquele azul que me dá vontade de surfar que eu ia com calma. Porque não tem como apressar isso. "Não se pode apressar o amor", como diria Phill Collins. Mesmo porque amor não é evento, acontecimento; amor é construção. E nenhuma construção fica pronta de uma hora pra outra, dum dia pro outro. É tudo questão de tempo.

Será que é por causa da outra coisa? Eu fico com medo que sim. Mas sei, no fundinho, que não é só isso.

Ele me perguntou se eu gostava dele. Eu falei que sim. Porque eu acho que sim. Mas até onde...? Aí eu já não sei.

máquina do tempo

Por séculos e séculos o homem tenta controlar o tempo a seu favor. Prendemos o tempo num relógio e o obrigamos a mudar a cada sessenta segundos ou sessenta minutos. Ficamos presos em convenções. E aí, não bastando o tempo enjaulado num pedaço de metal, ainda nos enquadramos com tempos já definidos: a hora de almoçar, de sair, de voltar, de malhar, de nascer e até a hora de morrer. O tempo da música, tempo de um filme, de um amor, de uma viagem. Enganamos a velhice com cirurgias plásticas (a fonte da juventude do terceiro milênio) e trapaceamos a realidade com os cortes no cinema. Apressamos o nascimento com fórceps e adiantamos a morte com armas, remédios, lâminas ou máquinas que podem ser desligadas. Mas ainda assim o tempo não pára. Tem gente que tenta voltar no tempo. Mas só conseguem por fotos e memórias -- nossas maquinhas particulares e únicas do tempo (que mesmo assim não são confiáveis, pois memórias se modificam com o passar dos anos).

Mas eis que um dia alguém criou a máquina do tempo. Uma máquina tão impressionante que pode, de fato, parar o mundo. A máquina que pode parar o trânsito, parar as pessoas, parar tudo --até a morte, se bobear ela pára. E essa máquina é a Copa do Mundo.

Impressionante que tudo, absolutamente tudo, pára para ver aquele bando de pessoas pequenininhas correndo atrás da pelota na busca de um gol que, feito lá, se torna um grito aqui. GOOOL! E só depois dos 90 e poucos minutos corridos, tudo volta a funcionar. O trânsito volta a congestionar, bancos voltam a trabalhar, pessoas continuam suas aulas. Enfim, a vida continua. Num rítimo mais lento, mas continua.

Se tivessem inventado a Copa do Mundo antes, será que Colombo teria descoberto a América? Teria Einstein teorizado sobre a relatividade? E a verdade é que muita gente deixou de nascer por causa disso. Afinal, quem é que vai saber de trepar quando a bola está rolando? Só um maluco.

É. Acho que é hora de dormir. Porque o meu relógio começou a afetar o cérebro. Tudo bem... Resultado de 90 minutos em que o Brasil parou. Até São Paulo. Nem uma bomba faz isso.

segunda-feira, junho 26, 2006

a perfect lie

Todo mundo finge. Em algum ponto da vida, mais ou menos, mas finge. Finge um sorriso, finge gostar de alguém, finge um orgasmo. Finge que a roupa é de grife, que o DVD é original, que o cabelo é loiro. Finge que é heterossexual, finge que é normal. E fingimos (sim, eu me incluo nisso) porque fingir virou também sinal de boa educação. "Muito prazer te rever", dizemos mesmo quando queremos dizer: "Que saco que você apareceu!". "Seu filho é tão lindinho", quando pensamos "Que cara de joelho!". "Seu filme ficou tão legal, Malu", quando na verdade não é bem essa a realidade.

Fingimos para nos encaixarmos, para não parecermos mais do que realmente somos: outcasts. Porque ser mais um está na moda. E aí a gente finge ser quem somos, quando na verdade nem mesmos nós sabemos. Fingimos ser autênticos. Logo nós, que achamos que nos conhecer tanto!

Pobres de nós. Na verdade, como diria a Hananza, a gente se encaixa num quadrado imposto por uma sociedade também quadrada. Mas eu... Eu tento. Eu tento fingir, nem que seja pra mim mesmo, que nada disso existe. Porque fingindo que não existem quadrados e formas e moldes e fórmulas, eu posso tentar ser mais original. Eu posso tentar ser mais eu.