Final de semana quente da pôrra! Dias desses que dá vontade de dar um tiro na bunda pra ver se faz ventinho... Porra! Parado você sua. Se movendo você sua. Tomando banho você sua. Nessas horas que é bom parar e pensar: ainda bem que não tinha ninguém na minha cama essa noite. Eu acho que chutava... Sério.
Mas apesar do calor e apesar dos pesares, não tenho muito o que reclamar do final de semana. E muito menos da semana. Foi uma semana dessas que, poderia dizer, eu fiz bastante novos contatos, novos amigos. Adoro novos contatos e amigos. Alguns com contatos mais direto, imediatos, do terceiro grau. Outros nem tantos.
Claro, como toda semana Felipina, um pouco de neura aqui ou ali faz parte. Mas o bom que estão sendo superadas. Enfim... Life goes on.
gosto de compartilhá-lo com os outros. gosto de opiniões. quem as tiver, por favor, não poupem...
A manhã estava estranha, fria. Estranho fazer frio bem no meio de Setembro, ainda mais no Rio de Janeiro. Me vesti meio que sem jeito, mais uma vez atrasada, tomando meu café num gole só. Caralho! Esqueci de adoçar. Com o gosto amargo daquele café quente que, além de disso me queimou a língua, catei a bolsa, o celular e as chaves do carro e saí, batendo a porta. Como de costume nesse condomínio de merda, o elevador custou a chegar. Toda vez é igual: aperto o botão e o desgraçado passa dois andares acima do meu para, só então, voltar. Uma mulher loira, meio velha – devia ter uns quarenta anos – apertava o botão para o andar da garagem a cada cinco segundos. Eu a observava calada, pasma com a secura de seu cabelo. Tintura barata, com certeza. No sexto andar o elevador parou de novo, dessa vez para um homem gordo, vestindo uma nojenta camisa azul, barba por fazer e aquela cara de sono, entrar. Fiquei com náuseas só de imaginar o bafo da criatura.
— Bom dia, moças.
Se existe uma coisa que me irrita ainda mais quando eu já estou atrasada e de TMP são esses homens nojentos de camisa azul que insistem em me chamar de “moça”. Odeio “moça”. Que palavra escrota! “Moça”... Bah!
A mulher do meu lado continuava a apertar o botão da garagem. O gordo soltou um leve suspiro antes de gargalhar e falar com aquela voz irritante:
– Não adianta fazer isso. Não faz ele ir mais rápido; olhando em seguida para mim, meio que buscando a minha aprovação. Porra! Ele tinha que olhar pra mim?
Dei meu horrível sorriso amarelo segurando minha língua para não mandá-lo à merda e rezando para o elevador descer logo os últimos três andares.
E a mulher apertou mais duas vezes a merda do botão. Que dia! E nem cinco minutos haviam se passado desde que saí de casa. Cacete! Como eu odeio esse gosto de café na boca.
* * *
Saí do quarto ainda pensando em Karen, sentindo o seu cheiro no lençol bagunçado. Não tem jeito! Por mais que eu peça, ela sempre se revira na cama até arrancar todas as camadas de lençóis deixando o colchão a vista. Se ela soubesse o quanto isso me deixa pê da vida...
Ainda com os cabelos amassados e embaraçados eu tentava entender se lá fora chovia ou estava sol. O frio era forte. Esquisito! Frio em Setembro? Cada vez menos eu entendia o Rio.
Enquanto requentava o café no microondas, eu arrumava a bagunça dela – no mínimo havia saído com pressa de novo. Por mais enlouquecedor fosse fazer aquilo, não tinha jeito. Eu derretia só de ver aquele sorrisinho. Aquela boca... Paixão é foda!
Alguns vizinhos berravam lá embaixo. Eu engolia o café com biscoitos com dificuldade, tentando engolir junto aqueles berros antes que eu levantasse e berrasse pela janela: Cala a boca, bando de filho da puta! Detesto vizinhos. Às vezes queria voltar pra minha cidade.
Liguei a tevê e sentei com desleixo no sofá, de perna arreganhada mesmo, sentando sobre ela, naquele sofá vermelho. Precisava mudar aquela cor. Vermelho estava forte demais! Mais notícias de assassinatos eram vomitadas por aquele patético âncora da Globo, enquanto eu brincava com as últimas gotas de café, misturado ao restinho de açúcar no fundo do meu copo de requeijão. Quem me visse jamais diria que eu morava na Barra da Tijuca...
— ...foi baleado quando saía da academia....; anunciava o pentelho.
Esquisito. Pra quê dar só notícia ruim? Acho que tudo isso faz parte de uma rede de conspiração para botar o medo na sociedade como uma espécie de mecanismo de dominação. Uma maneira de manter a população pobre sob controle. Pânico é a melhor saída... Agora eu entendo o porquê da minha mãe ser neurótica e ficar sempre me falando pra tomar cuidado com o Rio de Janeiro e com as “coisas terríveis que vêm acontecendo, com gente morrendo dos modos mais horríveis”. Ainda bem que não vejo tevê quase nunca.
Cada vez eu entendia menos o Rio. Bateu uma saudade da época que eu era uma típica paulistana, vivendo entre prédios e carros, alienada desse tipo de problemas... Saudade daquela época de paulistana sem sal.
* * *
Mais uma vez eu estava presa num elevador... Como se já não me bastasse estar atrasada e de TPM, um rapazinho jovem, duns dezenove ou vinte anos, bem vestido até, mascava um chiclete que, a essas alturas, nem gosto mais deveria ter, fazendo aquele barulhinho irritante. Do lado dele, me medindo dos pés à cabeça, Arnaldo, aquele idiota do RH, com sua barba escrota e verde e a mesma velha camisa surrada pra dentro da calça, tentando puxar assunto comigo, tendo como respostas os meus secos “arrã” e “ã-ã”, daqueles que deixam Marina com os nervos a flor da pele. Mas ele, ao contrário, não parecia se incomodar. A cada andar que subíamos ou que aquela porra de elevador parava, eu rezava baixinho desejando sair dali logo e que aquilo fosse tudo um sonho; assim que eu pisasse fora daquela caixa que sobe e desce, tudo seria lindo, eu seria feliz e o mundo perfeito, cheio de rosas e flores pelo chão onde eu passar. Odeio sonhos! Nunca se realizam.
Aquele papinho babaca sobre ações e investimentos estava me tirando do sério. O rapaz do chiclete olhava calado de canto de olho com um sorrisinho indecente. Ele entendia meu ódio por aquele velho.
A porta abriu e eu saí apressada, esbarrando em quem eu visse na minha frente, falando um rápido “oi” para uns e outros. Só cumprimentava por pura educação, pois minha vontade era mandar todo mundo tomar no cu e sair dali num pulo só.
— Karen?
A voz do meu chefe me soou tão dura quanto um murro no estômago. Não a voz pela voz, que era linda por sinal, mas aquele tom. Aquele tom de “vem-cá-sua-filha-duma-puta-vadia”. Eu nem me virei para responder. Ele detesta quando eu faço isso.
Ele começou a dizer alguma coisa que eu não conseguia decifrar muito bem. Só entendia o final: — É pra hoje, hein?! É pra hoje!.
É pra hoje o caralho dele!
* * *
Adoro dias de folga. Fazia tempo que eu estava trabalhando cobrindo Rosana em suas folgas e nas minhas para ela visitar o namorado babaca dela lá em Vila da Penha. Ninguém merece um namorado em Vila da Penha! E ainda mais aquela vaca da Rosana. Eu não sei como eu consigo ser tão boazinha. Por que eu não nasci sabendo falar “não” pros outros?
Meu dia oficial do ócio não estava sendo nada “ocioso”. Era dia de faxina. Deixar a casa para a louca da Karen arrumar é a mesma coisa que falar para um porquinho da Índia latir. Depois de tirar uma crosta de sujeira do chão da cozinha e praticamente uma peruca inteira do banheiro, de tanto cabelo que no chão, eu ainda tive que varrer, passar pano, passar e lavar roupa – odeio lavar calcinhas sujas de menstruação da Karen!!! Já não bastam as minhas? E como se isso tudo não fosse nada, eu ainda tinha... ou melhor, queria cozinhar um almoço bem gostoso para ela. Ela merecia. Coitada! Pelo menos assim eu sabia que ia conseguir me desculpar por tê-la feito atrasar-se de novo. Acho que eu preciso me conter um pouco mais na cama. Acho que estou com sérios problemas. Distúrbios sexuais, diria eu. Eu preciso ir num sex shop dia desses e comprar um consolo. Talvez seja falta disso...
Independente da falta ou não de pinto, eu tinha que terminar tudo aquilo. E o pior é que aquele era meu único dia para poder ir até o cabeleireiro. Meu cabelo estava um desastre. Eu olhava pro fogão, olhava pro chão, pra foto da Karen na mesinha do computador. Deu um aperto no coração só de pensar em não fazer o frango xadrez que ela tanto gostava. Mas era por uma boa causa, convenhamos. Eu estava indo ficar linda para ela. Não era nem para mim mesma, era para ela. Só pra ela.
Eu realmente estava precisando dum pinto... Essa história de passar dos trinta faz a gente pensar coisas horríveis. Realmente, muito horríveis.
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é isso. não poupem comentários, sejam eles positivos ou negativos. críticas e sugestões são sempre bem boas.