quarta-feira, fevereiro 21, 2007

mais fácil com átomos mesmo...

A propaganda começava assim:
"Sou negro. Quando nasci era negro. Quando cresci continuei negro. Quando sinto frio, sou negro. Quando me queimo ao sol, sou negro. Quando sinto medo, sou negro. Quando fico doente, sou negro. Quando morro, sou negro.
Você é branco. Quando nasceu, era rosa. Quando crescei, virou branco. Quando sente frio, é azul. Quando se queima a sol, é vermelho. Quando sente medo, é amarelo. Quando fica doente, é verde. Quando morre, é cinza.
E você tem coragem de dizer que eu sou uma pessoa de cor?".

Hoje resolvi escrever um pouco acerca de preconceito. Não sei se vou saber desenvolver esse tema já tão tratado, mas fiquei inspirado em tentar -- a propaganda realmente chegou até mim de uma forma inesperada. Fiquei horas pensando e aí fiquei com vontade de compartilhar minhas idéias.

Albert Einstein uma vez disse "É mais fácil romper um átomo do que quebrar um preconceito". Sabe que eu concordo com o velhinho do cabelo estranho com a língua de fora? Sim, eu acho que hoje as coisas andam muito mais fáceis para todo mundo num sentido geral. Acredito que as pessoas estejam mais abertas, mais "conformadas" com as diferenças e, assim, também menos aversas. Só que eu acho que esse nem é o pior tipo de preconceito. Acho que o pior preconceito é aquele que vem de dentro de nós mesmos. De nada adianta fazermos campanhas para direitos iguais para os gays, lutas contra racismo, e luta contra isso e aquilo quando a nossa sociedade traz implicíta nela os preconceitos dela própria. Os próprios grupos tem preconceito dentro de si, em minha visão.

Comecemos pelos gays, por exemplo. A gaylera quer porque quer lutar por direitos iguais, tratamento não-diferenciado perante a sociedade, que não lhes virem a cara e os tratem com respeito... um desejo nobre, eu diria. Mas aí começam com paradas gays, onde se perde completamente o sentido de tudo isso. Se você está procurando igualdade, pra que fazer um auê pra mostrar que é diferente? Fora que aí, nesses "eventos", se reforçam ainda mais os esteriótipos já tão reforçados pelos olhos alheios. Sim, pois as paradas não têm mais o aspecto de mudar e, sim, tornaram-se uma desculpa esfarrapada para uma farra em público, onde a pegação e o sexo ficam ainda mais banalizados e exposto, criando uma imagem bem distorcida do que nós realmente somos (se bem que, me pergunto, talvez seja essa mesma a realidade da maioria).
Aí entra agora uma outra coisa... O preconceito do gay para com o gay. Não, não me refiro ao preconceito contra o gay magrinho, o gay gordinho, o gay soro-positovo, o gay negro, o gay pobre, o travesti, ou qualquer outro tipo, mas sim o complexo de inferioridade que o gay põe sobre si mesmo. Para exemplificar, tomemos como exemplo o gay assumido e vencedor do Big Brother Brasil 2005, Jean Willis. Acho simplesmente RiDICULO o modo como esse cara encara a vida. Ele simplesmente se fez vencedor do Big Brother fazendo a coisa típica de quem tem preconceito de si mesmo; se vitimizando... "Ai, porque o gay é pobrezinho... Aí, porque os homens da casa votaram em mim porque eu sou gay... Ai, porque a sociedade não entende o gay e por isso somos sempre motivos de chacota". Ai, vai cagar, né? Se ser gay fosse uma coisa TAO horrenda, ninguém era, né? E ele fala como se fossemos todos do mesmo barco, como se todos fossemos xingados e apedrejados na rua. Poxa... E o pior é que eu já vi isso pessoalmente, com gente que eu conheço... Gente que se vitimiza, tentando culpar tudo que dá errado na vida porque é gay.
Mas isso nao acontece só no mundo gay não. Isso se dá em todos os aspectos... Negros tb são assim. Me perdoe se você é negro e lê isso, mas é o que eu penso. Não todos, é claro, mas muitos sim. Acho que o racismo ainda existe porque o sentimento de auto-piedade é tão grande que se transmite para um âmbito maior, ficando embutido na sociedade. E aí acontece mais ou menos como o caso da parada gay... São criados grupos e guetos para buscar a igualdade entre negros e brancos, aí vão lá e criam o sistema de cota nas universidades. Quer coisa mais preconceituosa que isso? O sistema de cota nada mais faz do que dizer implicitamente; você é um incapaz, aí assim podemos ajudar vc a ter uma chance. Porque, até onde eu sei, se um cara passa no vestibular é porque ele tirou nota boa, e não porque ele é branco e o papel achou lindo ajudá-lo por meio de mágica. Sabe?! É patético...

Acho que o que quero dizer é que por mais que as coisas hoje estejam muito mais amenas, a gente sempre cria novos preconceitos e aversões em relação a grupos e individuos. É quase impossível que não julguemos os outros por suas diferenças, embora tenhamos noção de que isso não é legal e condenemos atitudes dessa forma. Por isso concordo com Einstein... Não acho que o mundo esteja pronto pra se abrir desse jeito. È muito mais fácil viver com o preconceito, achando o que quer, do que ir atrás de mudar. É, é mais fácil com os átomos...

domingo, fevereiro 18, 2007

novas caras, novos amigos...?

O interessante de você começar um novo trabalho é, além do fato de você saber que vai ganhar uma graninha no final do mês, conhecer gente legal. Gente com os mesmos (ou quase mesmos) interesses que você, juntos em torno de um princípio comum. Sempre achei essa uma das maneiras mais legais e fáceis de se fazer amigos... fora de Santa Catarina...
Acho que essa foi a primeira dificuldade que senti ao mudar pra terra dos barrigas verdes. As pessoas são resistentes no quesito amizade. De primeira eu pensei: não sei por que se protegem tanto, será que não querem ser meus amigos? Nos vemos todos os dias, falamos a mesma língua, estamos no mesmo ambiente e vivendo praticamente a mesma vida por pelo menos sete horas por dia... por que não me deixam entrar? Enquanto eu, na minha ingenuidade de menino paulista que veio de Rio, já os considerava bastante próximos, quase amigos de levar pra casa e tomar sorvete, percebi que a coisa não era bem assim do lado de lá. E não é que, no final, esse povo tá mais do que certo? Pensa bem... Amizade, assim como um grande amor, não é um evento; é uma construção, é conquista. O simples fato de você se dar bem com uns e outros não os fazem dignos de sua confiaça e/ou amizade instantânea. Ainda que eu seja adepto da filosofia "confio até que me provem o contrário", respeito o jeito catarinense de ser. É claro, sempre tem suas excessões, e apesar de sentir falta de um amigããão de verdade, desses pra quem você conta tudo e liga as duas da manhã pra falar nada (eu não faço isso!), eu acho que vou aderir e ir com um pouco mais de calma. Quem sabe eu não construo uma amizade sólida e bonita e todos vivamos correndo em pastos amplos e campos de girassóis?
Post inútil...

reivention tour

Madonna que me perdoe, mas agora é minha vez. Vou roubar o nome da turnê dela e adaptar um pouco à minha nada mole vida...

Agora que as coisas parecem estar entrando nos eixos e parece tudo estar tomando uma forma, ao contrário da massa gelatinosa e informe que era a minha vida até pouco tempo atrás, eu aproveitei para entrar numas de reinvenção. Na verdade, não sei bem se reinvenção seria o termo correto... Talvez uma retomada de mim.

Nas últimas semanas entrei numa viagem interna muito grande. Saca essas viagens que você tem que fazer e começar a se confrontar com todas as coisas suas, com todos os seus aspectos, sejam eles bons ou maus? É dessas. E tenho feito isso direto. Desde que resolvi mudar minha vida e me tornar uma pessoa mais pra cima (porque enjoei de ficar sempre me botando pra baixo de cu de cobra e ficar com aquela história pentelhissima e deprê de auto-piedade--- coitado de mim!), as coisas começaram a mudar de uma forma geral e eu comecei a me deparar com um tipo de pessoa que eu não quero pra mim: a pessoa que eu estava sendo. Não vou nem dizer que era a pessoas que eu estava me tornando porque isso seria só uma desculpa para amenizar a realidade, porque eu estava realmente sendo assim. E é esse tipo de coisa que só um chacoalhão de uns e outros que te fazem abrir os olhos.
Quando eu ouvi, pela primeira vez na minha vida, as seguintes palavras: "você não se importa com as pessoas", nossa, eu fiquei absolutamente puto da cara. Como é que uma pessoa ousa a dizer esse tipo de absurdo pra mim? Eu queria socar o cara e fazê-lo engolir letrinha por letrinha que ele colocou no MSN. Aquilo me incomodou de tal forma que nem dormi eu consegui direito. Estava com raiva, ódio mesmo, até que no dia seguinte, num papo qualquer, ouço outra coisa bem parecida (e quando eu falo "ouço", muda pra "leio" porque é tudo papo de MSN, no começo): "você não faz questão de ser cordial. faz o que quer e é isso". Raiva de novo. Como as pessoas podem me julgar dessa forma? Como acontece toda vez que eu entro em pequenas crises e/ou fico puto, recorri imediatamente ao meu querido melhor amigo perguntando pra ele sobre o fato de eu ser uma má pessoa. Claro, eu estava super feliz porque eu tinha certeza de que o que ele ia me dizer ia me deixar mais feliz... Mas não é que ele me vira e fala "Hm... tem coisas que poderiam ser mudadas". E pra mim foi a gota d'água. Ouvir da pessoa que você mais admira e se apoia esse tipo de coisa, caiu como uma luva... luva de metal na minha cabeça. E foi aí que eu entrei nessa de auto-confrontamento. E, deixando de lado todo tipo de conceito sobre mim mesmo que eu tinha, comecei a perceber que era tudo verdade. Analisando meu comportamento passado, desde que cheguei em Floripa, percebi que era aquilo mesmo: eu estava sendo uma pessoa má (não no sentido literal da palavra), completamente egoísta e egocêntrica e, o que considero pior, fria. Foi o suficiente para eu ficar dois dias imerso em mim e levando bolachadas na cara.

Não sei bem ao certo o tipo de pessoa que eu quero ser, mas sei agora o tipo de pessoa que eu NÃO quero ser, assim como também sei o que eu NÃO quero pra minha vida (ainda que não saiba bem o que eu realmente queira). É bom a gente levar umas porradas dessas. Sei que as feridas que deixei em algumas pessoas não saram com um pedido de desculpas, mas eu tento da mesma forma. Se me machuca saber que tratei alguém de um modo que eu sempre julguei "errado" ou "inconveniente", me machuca ainda mais saber que magoei alguém. E agora corro atrás de reparos pra isso. Por isso estou em reforma; pra tentar me achar. Acho que minha essência permanece. Continuo sendo o mesmo pateta apaixonado, romantico, amigo, tolinho e bobão, mas com umas melhoras aqui e ali. Não, isso não ocorre duma hora pra outra, eu sei, mas acho que o tentar mudar é tão válido quanto a mudança em si. Ruim é se acomodar e deixar como está, quando isso faz mal pra você e pros outros.

Minha vida tá entrando nos trilhos e tomando forma. E eu também.

o dia que o carnaval mudou de cara... e de sentido

O carnaval sempre me pareceu uma grande bobagem, quase uma grande desculpa tola para esquecermos de nossos maiores problemas e, simplesmente, como bons brasileiros que somos, colocá-los embaixo dum grande tapete e fazê-los "invisíveis" aos olhos, porém ainda sensíveis aos pés. Não sei, sempre me causou essa má impressão, como mais uma escapada da hora de enfrentar tudo de frente e deixar os sentimentos mais crus do ser humano virem todos a tona: a sexualidade exacerbada, a violência... enfim, os excessos.

Em toda a minha vida consigo me lembrar de apenas um carnaval que curti pra caralho e não me arrependi de um segundo sequer: um carnaval completamente despretencioso, onde a ordem era apenas se divertir -- a festa da Cucanha em Piracicaba. Um carnaval simples, gostoso, que se passa todo ano num bairro tirolês afastado onde um grande grupo/bloco de pessoas segue pelas ruazinhas de terra pisada buscando de casa em casa ingredientes para um prato típico (a cucanha), e tudo isso regado a bebida de graça (as pessoas do local se encarregam da fartura de vinhos e outras bebidinhas interessantes) e muita, mas muuuuuita LAMA. Sim, você não consegue se manter limpo por 1 minuto sequer. Lembro que me advertiram que fosse com uma roupa mais velha pois iria me "sujar um pouco". Ingênuo, fui com uma roupinha mais ou menos... Antes tivesse ouvido! Foi só eu e uns amigos chegarmos no bairro e descer do carro para ouvirmos "Eles estão limpos!!" e um batalhão de gente correndo atrás da gente, nos pegando no colo e jogando os quatro na primeira poça de lama no caminho. Não bastando isso, baldes de lama também foram acrescentados à grande massa melequenta. E foi uma farra só! Descalços e sujos até o c... cérebro, fomos pelo bairro onde os moradores, simpáticos, ajudavam a manter a sujeira. E era só um engraçadinho se meter a limpar a cabeça, que vinha alguém e... chuáááá... mais lama na cabeça do pobre coitado. E no final de tudo isso, levavamos os tais ingredientes pra uma espécie de ginásio onde uma equipe enoooorme fazia a tal da Cucanha (que é uma espécie de polenta), servida na faixa pra quem quiser comer, numa espécie de show ao vivo muito foda. Foi sujo, mas valeu a pena! Foi um carnaval ingênuo, puro, sem putarias, onde a palavra de ordem era simplesmente diversão.

Esse ano a coisa mudou também. Mas não sei bem para que lado. Ao contrário dos outros anos, em que estava completamente relutante em me divertir em carnavais, este ano eu ando bem animadinho... Acho que continuo ainda um pouco "contido" demais, mas curti e to curtindo. Ontem na tal da festa Troy, que toooodo mundo me fez a maior propaganda, foi bem assim... curti bastante, apesar dos pesares. Ouvi coisas legais de gente que vale a pena e vi como é estar com pessoas que realmente se importam com você. Foi um dia marcante, eu diria. Foi o dia que eu vi que to me encaixando no esquema Floripa de ser. Não, eu não beijei ninguém, mesmo pq eu ando com o dedo ótimo pra essas coisas: sempre escolho ou os comprometidos ou os que sequer notam a minha presença. E ultimamente eu ando assim... Quando saio, sempre que tem um que eu gosto, eu prefiro investir naquele um do que dar tiro para todos os lados e pegar a primeira vítima. That's so not me!
Enfim, to perdendo o fio aqui...

A coisa mudou. Eu curti e quero aproveitar pra me deixar ser quem eu sou, sem tentar me prender, me conter.. Eu já sou contido demais no dia a dia. Claro, isso não significa que eu vá sair por aí catando qualquer um, bebendo horrorres, batendo em gente... Mas vou deixar (e estou deixando) o ''Phil de verdade'' aparecer de pouco em pouco. E acho isso muito legal! Se eu quiser dançar, eu danço... se não quiser, foda-se. Acho que é assim que a vida é boa... Eu quero curtir outros carnavais e me permitir que esse sentimentos de liberdade tome conta de mim por todo o ano. E que essa energia esquisita que as pessoas exalam nessa época fique comigo, porque eu tô gostando de ser assim, ainda mais nessa minha fase de reinvenção, reformulação de mim.

Hm... acho que perdi o fio de novo?

Mas... você me entende?

domingo, janeiro 28, 2007

caracteres

Engraçados os blogs. Esses pequenos "diários" (não necessariamente "diários") eletrônicos parecem liberar um lado diferente das pessoas. São como pequenos livros em que publicamos qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, que se passe na cabeça... Seja uma idéia, uma música, um poema, um texto, um desabafo. Alguns preferem filosofar sobre pequenos aspectos da vida, daqueles que a gente raramente pára pra pensar, e acaba deixando passar, mas que, na verdade, são tão importantes como a vida em si. Outros preferem explorar o lado artístico da pessoa, que declama poemas, ou mesmo textos que em sua essência são poemas, com as palavras escolhidas a dedo para uma sonoridade bonita. Gosto dos blogs que me atingem e são esses o que boto como links ali na barrinha do lado.

E acredito que esses blogs me toquem mais profundamente, às vezes, do que uma palavra dita, falada. Acho que a palavra escrita se grava na cabeça, não sei. É como se se queimasse no cérebro e ficasse ali, rodando, rodando, até ser digerida ou semi-apagada por novas outras palavras que vão ficar ali rodando, rodando.

Não tenho pretensões com as coisas que escrevo. Acho que busco mesmo é aliviar a minha cabeça, botar idéias pra fora. Porque esse é meu livrinho, meu "lixo", meu depósito. É aqui que eu boto um pouquinho de mim que eu não mostro num sorriso ou num MSN ou num café na mesa dum bar. Engraçados os blogs...

blá, blá, blá

Final de semana quente da pôrra! Dias desses que dá vontade de dar um tiro na bunda pra ver se faz ventinho... Porra! Parado você sua. Se movendo você sua. Tomando banho você sua. Nessas horas que é bom parar e pensar: ainda bem que não tinha ninguém na minha cama essa noite. Eu acho que chutava... Sério.
Mas apesar do calor e apesar dos pesares, não tenho muito o que reclamar do final de semana. E muito menos da semana. Foi uma semana dessas que, poderia dizer, eu fiz bastante novos contatos, novos amigos. Adoro novos contatos e amigos. Alguns com contatos mais direto, imediatos, do terceiro grau. Outros nem tantos.
Claro, como toda semana Felipina, um pouco de neura aqui ou ali faz parte. Mas o bom que estão sendo superadas. Enfim... Life goes on.

Hoje vou tirar um espacinho do meu blog pra postar um texto que venho escrevendo já tem um tempo. modesto que sou, acho um ótimo texto e gosto de compartilhá-lo com os outros. gosto de opiniões. quem as tiver, por favor, não poupem...

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tpm: tempos pós-modernos (parte um)


A manhã estava estranha, fria. Estranho fazer frio bem no meio de Setembro, ainda mais no Rio de Janeiro. Me vesti meio que sem jeito, mais uma vez atrasada, tomando meu café num gole só. Caralho! Esqueci de adoçar. Com o gosto amargo daquele café quente que, além de disso me queimou a língua, catei a bolsa, o celular e as chaves do carro e saí, batendo a porta. Como de costume nesse condomínio de merda, o elevador custou a chegar. Toda vez é igual: aperto o botão e o desgraçado passa dois andares acima do meu para, só então, voltar. Uma mulher loira, meio velha – devia ter uns quarenta anos – apertava o botão para o andar da garagem a cada cinco segundos. Eu a observava calada, pasma com a secura de seu cabelo. Tintura barata, com certeza. No sexto andar o elevador parou de novo, dessa vez para um homem gordo, vestindo uma nojenta camisa azul, barba por fazer e aquela cara de sono, entrar. Fiquei com náuseas só de imaginar o bafo da criatura.
— Bom dia, moças.
Se existe uma coisa que me irrita ainda mais quando eu já estou atrasada e de TMP são esses homens nojentos de camisa azul que insistem em me chamar de “moça”. Odeio “moça”. Que palavra escrota! “Moça”... Bah!
A mulher do meu lado continuava a apertar o botão da garagem. O gordo soltou um leve suspiro antes de gargalhar e falar com aquela voz irritante:
– Não adianta fazer isso. Não faz ele ir mais rápido; olhando em seguida para mim, meio que buscando a minha aprovação. Porra! Ele tinha que olhar pra mim?
Dei meu horrível sorriso amarelo segurando minha língua para não mandá-lo à merda e rezando para o elevador descer logo os últimos três andares.
E a mulher apertou mais duas vezes a merda do botão. Que dia! E nem cinco minutos haviam se passado desde que saí de casa. Cacete! Como eu odeio esse gosto de café na boca.

* * *

Saí do quarto ainda pensando em Karen, sentindo o seu cheiro no lençol bagunçado. Não tem jeito! Por mais que eu peça, ela sempre se revira na cama até arrancar todas as camadas de lençóis deixando o colchão a vista. Se ela soubesse o quanto isso me deixa pê da vida...
Ainda com os cabelos amassados e embaraçados eu tentava entender se lá fora chovia ou estava sol. O frio era forte. Esquisito! Frio em Setembro? Cada vez menos eu entendia o Rio.
Enquanto requentava o café no microondas, eu arrumava a bagunça dela – no mínimo havia saído com pressa de novo. Por mais enlouquecedor fosse fazer aquilo, não tinha jeito. Eu derretia só de ver aquele sorrisinho. Aquela boca... Paixão é foda!
Alguns vizinhos berravam lá embaixo. Eu engolia o café com biscoitos com dificuldade, tentando engolir junto aqueles berros antes que eu levantasse e berrasse pela janela: Cala a boca, bando de filho da puta! Detesto vizinhos. Às vezes queria voltar pra minha cidade.
Liguei a tevê e sentei com desleixo no sofá, de perna arreganhada mesmo, sentando sobre ela, naquele sofá vermelho. Precisava mudar aquela cor. Vermelho estava forte demais! Mais notícias de assassinatos eram vomitadas por aquele patético âncora da Globo, enquanto eu brincava com as últimas gotas de café, misturado ao restinho de açúcar no fundo do meu copo de requeijão. Quem me visse jamais diria que eu morava na Barra da Tijuca...
— ...foi baleado quando saía da academia....; anunciava o pentelho.
Esquisito. Pra quê dar só notícia ruim? Acho que tudo isso faz parte de uma rede de conspiração para botar o medo na sociedade como uma espécie de mecanismo de dominação. Uma maneira de manter a população pobre sob controle. Pânico é a melhor saída... Agora eu entendo o porquê da minha mãe ser neurótica e ficar sempre me falando pra tomar cuidado com o Rio de Janeiro e com as “coisas terríveis que vêm acontecendo, com gente morrendo dos modos mais horríveis”. Ainda bem que não vejo tevê quase nunca.
Cada vez eu entendia menos o Rio. Bateu uma saudade da época que eu era uma típica paulistana, vivendo entre prédios e carros, alienada desse tipo de problemas... Saudade daquela época de paulistana sem sal.

* * *

Mais uma vez eu estava presa num elevador... Como se já não me bastasse estar atrasada e de TPM, um rapazinho jovem, duns dezenove ou vinte anos, bem vestido até, mascava um chiclete que, a essas alturas, nem gosto mais deveria ter, fazendo aquele barulhinho irritante. Do lado dele, me medindo dos pés à cabeça, Arnaldo, aquele idiota do RH, com sua barba escrota e verde e a mesma velha camisa surrada pra dentro da calça, tentando puxar assunto comigo, tendo como respostas os meus secos “arrã” e “ã-ã”, daqueles que deixam Marina com os nervos a flor da pele. Mas ele, ao contrário, não parecia se incomodar. A cada andar que subíamos ou que aquela porra de elevador parava, eu rezava baixinho desejando sair dali logo e que aquilo fosse tudo um sonho; assim que eu pisasse fora daquela caixa que sobe e desce, tudo seria lindo, eu seria feliz e o mundo perfeito, cheio de rosas e flores pelo chão onde eu passar. Odeio sonhos! Nunca se realizam.
Aquele papinho babaca sobre ações e investimentos estava me tirando do sério. O rapaz do chiclete olhava calado de canto de olho com um sorrisinho indecente. Ele entendia meu ódio por aquele velho.
A porta abriu e eu saí apressada, esbarrando em quem eu visse na minha frente, falando um rápido “oi” para uns e outros. Só cumprimentava por pura educação, pois minha vontade era mandar todo mundo tomar no cu e sair dali num pulo só.
— Karen?
A voz do meu chefe me soou tão dura quanto um murro no estômago. Não a voz pela voz, que era linda por sinal, mas aquele tom. Aquele tom de “vem-cá-sua-filha-duma-puta-vadia”. Eu nem me virei para responder. Ele detesta quando eu faço isso.
Ele começou a dizer alguma coisa que eu não conseguia decifrar muito bem. Só entendia o final: — É pra hoje, hein?! É pra hoje!.
É pra hoje o caralho dele!

* * *

Adoro dias de folga. Fazia tempo que eu estava trabalhando cobrindo Rosana em suas folgas e nas minhas para ela visitar o namorado babaca dela lá em Vila da Penha. Ninguém merece um namorado em Vila da Penha! E ainda mais aquela vaca da Rosana. Eu não sei como eu consigo ser tão boazinha. Por que eu não nasci sabendo falar “não” pros outros?
Meu dia oficial do ócio não estava sendo nada “ocioso”. Era dia de faxina. Deixar a casa para a louca da Karen arrumar é a mesma coisa que falar para um porquinho da Índia latir. Depois de tirar uma crosta de sujeira do chão da cozinha e praticamente uma peruca inteira do banheiro, de tanto cabelo que no chão, eu ainda tive que varrer, passar pano, passar e lavar roupa – odeio lavar calcinhas sujas de menstruação da Karen!!! Já não bastam as minhas? E como se isso tudo não fosse nada, eu ainda tinha... ou melhor, queria cozinhar um almoço bem gostoso para ela. Ela merecia. Coitada! Pelo menos assim eu sabia que ia conseguir me desculpar por tê-la feito atrasar-se de novo. Acho que eu preciso me conter um pouco mais na cama. Acho que estou com sérios problemas. Distúrbios sexuais, diria eu. Eu preciso ir num sex shop dia desses e comprar um consolo. Talvez seja falta disso...
Independente da falta ou não de pinto, eu tinha que terminar tudo aquilo. E o pior é que aquele era meu único dia para poder ir até o cabeleireiro. Meu cabelo estava um desastre. Eu olhava pro fogão, olhava pro chão, pra foto da Karen na mesinha do computador. Deu um aperto no coração só de pensar em não fazer o frango xadrez que ela tanto gostava. Mas era por uma boa causa, convenhamos. Eu estava indo ficar linda para ela. Não era nem para mim mesma, era para ela. Só pra ela.
Eu realmente estava precisando dum pinto... Essa história de passar dos trinta faz a gente pensar coisas horríveis. Realmente, muito horríveis.

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é isso. não poupem comentários, sejam eles positivos ou negativos. críticas e sugestões são sempre bem boas.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

paciência?

Ok. Você tem vinte e quatro anos e está sozinho. Aí você pensa "Humm... Acho que é uma boa eu me apaixonar agora". Você vai, conhece um cara legal que tem um papo muito do jeitinho que você gosta de ouvir -- talvez sobre filmes, arte, sexo ou coisas desse tipo -- e que, pra ajudar, é bem bonitinho. Aí você pensa "Humm... Acho que esse pode ser uma boa!" e, movido pela sua carência, você acaba cedendo a uma espécie de paixonite virtual e passa a conversar com ele todos os dias. De vez em quando vocês trocam mensagens. Às vezes preferem e-mails, que cabe mais, você pode dizer bem mais, e escrevem longos e-mails apaixonados como se vocês se conhecessem a meses quando na verdade acho que faz uns dois dias que vocês se teclam.
Até aí tudo bem. Mas a coisa começa a ficar um pouco mais intensa: os papos entre internet e telefone acabam ficando mais frequentes e seu coraçao bate um pouco mais forte quando você pensa nele e você se pega pensando nele muito. Mas muito! De vez em quando tem até sonhos mais... digamos, safadinhos, e você pensa "Cara, esse daí é perfeito!". Claro, nessa hora você não tem noção de que a carência é que está te fazendo pensar esse tipo de coisas e, óbvio, é muito bom estar "apaixonado", e melhor ainda é ter alguém que corresponda a sua expectativa. E você vai se deixando levar, fazendo planos, imaginando situações, vocês se beijando num cinema ou talvez numa praia ou quem sabe com você dirigindo e ele segurando a sua mão. E você acredita nisso. Acredita muito nisso. Por várias vezes você acredita até mesmo que está quase amando. Sim, quase amando! E você passa a chamar a pessoa de "amor" ou ainda de algum apelidinho mais íntimo ("mô") e isso em apenas dez dias dessa paixonite virtual.
Os planos ficam mais frequentes e está quase na hora de vocês se encontrarem e, óbvio, tem de ser o encontro perfeito: vocês vão se ver e cair nos braços um do outro num longo e apaixonado beijo e ver que tudo aquilo era o que você sempre sonhou e depois de anos estarão casados e dividindo um apartamento só de vocês, com porta-retratos com tema de cinema e uma larga prateleira de DVDs que vocês assistirão todas as noites para o resto de suas vidas comendo chocolate e tomando Coca-Cola. Aí você se programa todo, faz as malas, dá um jeito na barba, se arruma, fica apresentável apesar das neuroses, bota um CD feliz no carro e vai. E você tem fé e plena certeza de que tudo vai dar certo.
Vocês se conhecem numa rua qualquer. Você que foi buscá-lo. Ele parece bonito. Você gosta do sorriso dele e do jeito dele falar com você. Ele entra no carro e vocês se abraçam um pouco desajeitados, querendo talvez se beijar mas não podem por estarem numa via pública com bastante gente perto, e isso nunca é bom para um primeiro encontro, mesmo que seja com o amor de sua vida. Você bota uma música calminha no carro ou procura algo que agrade o carinha mais perfeito do mundo até que vocês param num sinal e ficam se olhando feito bobos apaixonados, e suas mãos se tocam perto do câmbio. É a glória! Agora você tem certeza de que ele é o cara. O papo de vocês vai muito bem, obrigado, e tudo parece se encaixar até a hora do beijo. O beijo mais perfeito que você já provou! O beijo te acende, te leva as nuvens, você pensa "Uôu!" e fica alucinado. Ele é perfeito! E deseja que o momento nunca mais acabe.
Algumas horas depois vocês estão deitados na mesma cama, pelados, ele te olhando com olhar apaixonado, dizendo aquele monte de coisas que você sempre quis ouvir, beijando sua boca sem parar e tudo que você pensa é "Deus... O que eu estou fazendo aqui?". É como se de repente um balde de água fria caísse na sua cabeça. Não tem NADA de errado com ele. Ok, até tem, mas nada que você realmente ligue. Bom, talvez ligue, mas você pensa que isso é tudo muito irrelevante e prefere respirar um pouco pra ver se não é só um tiquezinho de mau humor que te bateu, afinal você está um pouco cansado. Aí ele começa a te dizer várias coisas de novo e te beija novamente. Ao invés do "Meu Deus, estou no paraíso" que você achou que ia dizer toda vez que a boca dele tocasse a sua, o que você pensa lá no fundinho tentando esconder com um sorriso no rosto é "Realmente... O que eu estou fazendo aqui?". Você tenta achar uma resposta, buscando nele alguma coisa que te atraia. Ele é gatinho, sim. O sexo foi até muito melhor do que você esperava e ele está ali, todo pra você, pronto pra você, se quiser mais uma ele não vai negar. Você continua olhando pra ele e seus pés começam a mexer. Você fica inquieto e não sabe onde por as mãos, então deita sobre elas como se estivesse se abraçando e tenta conter os beijos com um pouco de simpatia, embora você pense que isso não vai funcionar muito bem.
A sua paciência está se esgotando e você tenta se forçar a querer estar ali e não deitado no sofá da sua casa vendo Os Simpsons e brincando com seu cachorro. Não tem mesmo nada de errado com ele. Você se pergunta se são as palavras ou o gosto da boca dele, mas o pior é que é tudo do jeito que você gosta. "Mas por que não estou gostando disso", você continua se endagando. Suas pernas quase sambam sozinhas e você tenta sair da cama mas ele não deixa... Mesmo assim você se levanta e diz que quer ir embora pra sua casa. Ele te olha e não entende nada e você também não sabe ao certo o que vai dizer que não o faça ficar magoado ou sair correndo achando que você é meio maluco. Ele insiste pra que você fique, mas você não tem vontade.
Você agora está no carro e pensando sobre tudo. Você realmente gostou dele. Ele parece um cara muito legal. Até os amigos dele são legais. Você reflete e começa a achar seriamente que você é mesmo louco. E é aí que você descobre o real motivo. Te faltou foi paciência. Desde aquele louquinho do Fábio você não tem tido tanta paciência com os outros. Você já tentou ficar com mais dois ou três caras e todos foram assim: depois de algumas horas você queria sair correndo. Não tinha nada de errado com eles e você queria sair correndo. E você tem sempre medo de tê-los magoado e deseja que isso não tenha acontecido. Você não suporta ver ninguém triste por você. A culpa é muito grande... É, o problema definitivamente não é com eles. Em outros tempos você estaria mais que apaixonado e, provavelmente, com um namoro engatado, mas hoje você mudou. Hoje você não quer exatamente isso. E a verdade é que você não sabe bem o que quer. Talvez você quer espaço. De repente você merece espaço... não, não... você PRECISA de espaço. Depois de um ano desastroso, amorosamente falando, talvez seja hora de rever seus conceitos. E de repente essas pessoas estejam te ensinando alguma coisa. Você sempre aprende com seus relacionamentos, por mais curtos que sejam.
Ok, você tem vinte e quatro anos e está sozinho. Aí você pensa "Humm... Acho que é uma boa eu me apaixonar agora"... Pena que você não tem paciência pra isso. Fica sozinho por um tempo.

Sun and Give and Age - mais uma piada sem graça

Hoje escrevi um texto um pouco deprimente em meu fotolog. Era algo dizendo um pouco sobre minhas neuroses de estar acima do peso e como isso tem interferido em minha vida e as minhas novas táticas de combater esse mal. É engraçado reparar as respostas que recebi. Não que as respostas em si sejam engraçadas. Muito pelo contrário. É engraçado porque é bom ver que as pessoas, em momentos de crise, se prontificam a ser legais contigo, te dando força para sair dessa e seguir em frente com um sorriso no rosto. Acho que isso é o que chamam de solidariedade, não? Gosto do modo com as pessoas se mostram interessadas com o que me aflige e a força que me dão não dizendo palavras bonitinhas, mas sim esfregando com suavidade a realidade na cara e dizendo "Isso mesmo, Phil, vá em frente!", ao invés de ficarem fingindo que está tudo bem e dizendo "É, se você quiser melhorar é bom, mas você tá ótimo assim". E acho que é isso que eu ando procurando ultimamente em minha vida: sinceridade. E digo mais... Pessoas com coragem para serem sinceras. Será que isso vem com a idade? Enfim, pessoas, continuem sendo assim. Porque eu só aprendo e consigo ver quando as coisas me são mostradas na cara.