quinta-feira, janeiro 18, 2007

paciência?

Ok. Você tem vinte e quatro anos e está sozinho. Aí você pensa "Humm... Acho que é uma boa eu me apaixonar agora". Você vai, conhece um cara legal que tem um papo muito do jeitinho que você gosta de ouvir -- talvez sobre filmes, arte, sexo ou coisas desse tipo -- e que, pra ajudar, é bem bonitinho. Aí você pensa "Humm... Acho que esse pode ser uma boa!" e, movido pela sua carência, você acaba cedendo a uma espécie de paixonite virtual e passa a conversar com ele todos os dias. De vez em quando vocês trocam mensagens. Às vezes preferem e-mails, que cabe mais, você pode dizer bem mais, e escrevem longos e-mails apaixonados como se vocês se conhecessem a meses quando na verdade acho que faz uns dois dias que vocês se teclam.
Até aí tudo bem. Mas a coisa começa a ficar um pouco mais intensa: os papos entre internet e telefone acabam ficando mais frequentes e seu coraçao bate um pouco mais forte quando você pensa nele e você se pega pensando nele muito. Mas muito! De vez em quando tem até sonhos mais... digamos, safadinhos, e você pensa "Cara, esse daí é perfeito!". Claro, nessa hora você não tem noção de que a carência é que está te fazendo pensar esse tipo de coisas e, óbvio, é muito bom estar "apaixonado", e melhor ainda é ter alguém que corresponda a sua expectativa. E você vai se deixando levar, fazendo planos, imaginando situações, vocês se beijando num cinema ou talvez numa praia ou quem sabe com você dirigindo e ele segurando a sua mão. E você acredita nisso. Acredita muito nisso. Por várias vezes você acredita até mesmo que está quase amando. Sim, quase amando! E você passa a chamar a pessoa de "amor" ou ainda de algum apelidinho mais íntimo ("mô") e isso em apenas dez dias dessa paixonite virtual.
Os planos ficam mais frequentes e está quase na hora de vocês se encontrarem e, óbvio, tem de ser o encontro perfeito: vocês vão se ver e cair nos braços um do outro num longo e apaixonado beijo e ver que tudo aquilo era o que você sempre sonhou e depois de anos estarão casados e dividindo um apartamento só de vocês, com porta-retratos com tema de cinema e uma larga prateleira de DVDs que vocês assistirão todas as noites para o resto de suas vidas comendo chocolate e tomando Coca-Cola. Aí você se programa todo, faz as malas, dá um jeito na barba, se arruma, fica apresentável apesar das neuroses, bota um CD feliz no carro e vai. E você tem fé e plena certeza de que tudo vai dar certo.
Vocês se conhecem numa rua qualquer. Você que foi buscá-lo. Ele parece bonito. Você gosta do sorriso dele e do jeito dele falar com você. Ele entra no carro e vocês se abraçam um pouco desajeitados, querendo talvez se beijar mas não podem por estarem numa via pública com bastante gente perto, e isso nunca é bom para um primeiro encontro, mesmo que seja com o amor de sua vida. Você bota uma música calminha no carro ou procura algo que agrade o carinha mais perfeito do mundo até que vocês param num sinal e ficam se olhando feito bobos apaixonados, e suas mãos se tocam perto do câmbio. É a glória! Agora você tem certeza de que ele é o cara. O papo de vocês vai muito bem, obrigado, e tudo parece se encaixar até a hora do beijo. O beijo mais perfeito que você já provou! O beijo te acende, te leva as nuvens, você pensa "Uôu!" e fica alucinado. Ele é perfeito! E deseja que o momento nunca mais acabe.
Algumas horas depois vocês estão deitados na mesma cama, pelados, ele te olhando com olhar apaixonado, dizendo aquele monte de coisas que você sempre quis ouvir, beijando sua boca sem parar e tudo que você pensa é "Deus... O que eu estou fazendo aqui?". É como se de repente um balde de água fria caísse na sua cabeça. Não tem NADA de errado com ele. Ok, até tem, mas nada que você realmente ligue. Bom, talvez ligue, mas você pensa que isso é tudo muito irrelevante e prefere respirar um pouco pra ver se não é só um tiquezinho de mau humor que te bateu, afinal você está um pouco cansado. Aí ele começa a te dizer várias coisas de novo e te beija novamente. Ao invés do "Meu Deus, estou no paraíso" que você achou que ia dizer toda vez que a boca dele tocasse a sua, o que você pensa lá no fundinho tentando esconder com um sorriso no rosto é "Realmente... O que eu estou fazendo aqui?". Você tenta achar uma resposta, buscando nele alguma coisa que te atraia. Ele é gatinho, sim. O sexo foi até muito melhor do que você esperava e ele está ali, todo pra você, pronto pra você, se quiser mais uma ele não vai negar. Você continua olhando pra ele e seus pés começam a mexer. Você fica inquieto e não sabe onde por as mãos, então deita sobre elas como se estivesse se abraçando e tenta conter os beijos com um pouco de simpatia, embora você pense que isso não vai funcionar muito bem.
A sua paciência está se esgotando e você tenta se forçar a querer estar ali e não deitado no sofá da sua casa vendo Os Simpsons e brincando com seu cachorro. Não tem mesmo nada de errado com ele. Você se pergunta se são as palavras ou o gosto da boca dele, mas o pior é que é tudo do jeito que você gosta. "Mas por que não estou gostando disso", você continua se endagando. Suas pernas quase sambam sozinhas e você tenta sair da cama mas ele não deixa... Mesmo assim você se levanta e diz que quer ir embora pra sua casa. Ele te olha e não entende nada e você também não sabe ao certo o que vai dizer que não o faça ficar magoado ou sair correndo achando que você é meio maluco. Ele insiste pra que você fique, mas você não tem vontade.
Você agora está no carro e pensando sobre tudo. Você realmente gostou dele. Ele parece um cara muito legal. Até os amigos dele são legais. Você reflete e começa a achar seriamente que você é mesmo louco. E é aí que você descobre o real motivo. Te faltou foi paciência. Desde aquele louquinho do Fábio você não tem tido tanta paciência com os outros. Você já tentou ficar com mais dois ou três caras e todos foram assim: depois de algumas horas você queria sair correndo. Não tinha nada de errado com eles e você queria sair correndo. E você tem sempre medo de tê-los magoado e deseja que isso não tenha acontecido. Você não suporta ver ninguém triste por você. A culpa é muito grande... É, o problema definitivamente não é com eles. Em outros tempos você estaria mais que apaixonado e, provavelmente, com um namoro engatado, mas hoje você mudou. Hoje você não quer exatamente isso. E a verdade é que você não sabe bem o que quer. Talvez você quer espaço. De repente você merece espaço... não, não... você PRECISA de espaço. Depois de um ano desastroso, amorosamente falando, talvez seja hora de rever seus conceitos. E de repente essas pessoas estejam te ensinando alguma coisa. Você sempre aprende com seus relacionamentos, por mais curtos que sejam.
Ok, você tem vinte e quatro anos e está sozinho. Aí você pensa "Humm... Acho que é uma boa eu me apaixonar agora"... Pena que você não tem paciência pra isso. Fica sozinho por um tempo.

2 comentários:

MaxReinert disse...

... bom, pelo menos foi você que decidiu que não estava afim.... pior é quando é você que está do outro lado... vc é quem quer que o cara fique... e naum consegue entender o que fez de errado para que o cara tenha tanta pressa de ir embora!

...

Wagner Marques disse...

Bom, na verdade acho que se sentir seguro para partilhar a vida com um outro alguém, é uma atitude tão pessoal quanto uma masturbação...

Mas se o fato for como equilibrar essa relação, acho que o eixo deve ser o equilibrio entre as semelhanças e diferenças de ambos, penso.

Mas muito legal esse teu texto!

PAZ E BEM.

PS.: dá uma visitada em meu blog, es naum for pedir demais...

www.wagnermarques.blogspot.com
(LINHAS DO DESASSOSSEGO)